ANAC com restrições orçamentárias e entregue à politicagem

Ainda na década de 1930, Heinrich criou uma lógica que é reconhecida até hoje que estabelece a correlação entre uma determinada quantidade de acidentes e diversos incidentes que antecederam eventos mais graves. Mais recentemente, Bird atualizou o raciocínio de Heinrich e há muitos anos a aviação aprendeu e sabe que antes de um acidente mais sério, um número enorme de pequenos incidentes de maior ou menos gravidade ocorreram e poderiam ter servido de sinais que algo de mais grave estaria por vir.

Pois, bem. A AOPA Brasil vem alertando a comunidade de aviação, desde o final do ano passado, que a politicagem de mais baixo nível oriunda no Palácio do Planalto, que indicou pessoas sem qualquer reputação ou conhecimento em aviação para a diretoria da ANAC, faria com que a Agência regredisse 10, 15 anos em seu processso de amadurecimento como órgão central do setor aéreo nacional. 

Sem comando na ANAC, cujas indicações do Presidente da República estão nas gavetas do Presidente do Senado, a Agência vem sofrendo. O ápice mais recente foi a nota pública da ANAC, informando que cortes orçamentários estão comprometendo funções básicas, como a realização de provas teóricas para pilotos e mecânicos, cheques e recheques de aviadores e fiscalizações.

Nos últimos meses, temos visto de tudo na aviação brasileira:

Esses são só alguns eventos recentes, de "menor gravidade", que podem indicar que algo mais grave pode estar por vir.

Todos sabemos que falta de comando e controle, na aviação, acaba em acidentes sérios. E a ANAC é o centro de comando e controle da aviação brasileira.

Isso tudo somado só nos leva a uma conclusão:

A aviação está com sua Agência central severamente prejudicada em termos orçamentários pelo atual governo. A bagunça do setor passou a conviver com incidentes relevantes de alguns meses para cá. Para isso se tornar um acidente, pode não estar faltando muito.

Caso algo mais sério ocorra, os responsáveis são conhecidos: o Presidente da República, o Presidente do Senado e o Presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado. Como já dissemos: o país está sob a liderança política de irresponsáveis, que não se envergonham de negociar cargos técnicos da aviação como se fossem mercadorias, desprezando os riscos, as complexidades do setor e, a segurança aérea.

   

Bonanza Fly-In 25: IMPERDÍVEL

Desde 2005, sob o comando do nosso amigo Comandante Luiz Gustavo e de todos os parceiros do Bonanza Clube do Brasil, a edição de do Bonanza Fly-In promete.

Como sempre impecável, o evento vai ocorrer nos dias 27 e 28 de Junho, daqui a menos de uma semana. A AOPA Brasil incentiva fortemente seus associados e toda a comunidade aeronáutica brasileira a comparecer, prestigiar e aproveitar esse que é um dos melhores encontros de aviação do Brasil!

Para ver a programação, acesse aqui: https://www.bonanzaflyin.com.br/

Para escolher e adquirir seus ingressos, acesse aqui: https://oticket.com.br/event/7710/bonanza-fly-in-2025

O evento será no Aeroporto de São Joaquim da Barra, que por si só é uma pérola e mostra que quando a comunidade da aviação resolve cuidar de um aeroporto ele fica perfeito e acessível.

Nos vemos em SDJO!

A política está tornando a aviação brasileira uma bagunça

O que ocorreu hoje, com a pane nos sistemas de Planos de Voo no Brasil é só mais um ângulo do caos na gestão da aviação no país. Verdadeiramente, o setor aéreo está sob risco operacional grave. 

Há meses, a AOPA Brasil vem alertando a comunidade da aviação, a ANAC, o Senado Federal e diversas autoridades que a desordem, desinvestimento, falta de liderança e desconhecimento técnico, na aviação, são intoleráveis. Um país que se respeite e queira ser respeitado não pode admitir conviver com amadorismo e incompetência na sua aviação.

Só nos últimos dez dias, drones do narcotráfico impediram dezenas de pousos em Guarulhos, o maior aeroporto do pais; a ANAC suspendeu provas de habilitações para pilotos e profissionais da aviação; hoje, a queda total do sistema de planos de voo, por horas, impediu operações, atrasou decolagens e gerou instabilidades inaceitáveis à segurança. 

Esse estado de coisas tem culpados: o Presidente da República, o Presidente do Senado e o Presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado. Eles são as pessoas responsáveis por esse caos, que só não se transformou ainda em um acidente ou em incidentes por pura sorte. Não é alarmismo dizer que a ocorrência de algo grave é uma questão de tempo.

O país está sob a liderança política de irresponsáveis, que não se envergonham de negociar cargos técnicos da aviação como se fossem mercadorias, desprezando os riscos, as complexidades do setor e, a segurança aérea.

A Presidência da República, sua cadeia de comando e a Presidência do Senado Federal, que são os responsáveis legais pela indicação e nomeação para cargos de liderança na aviação, particularmente na ANAC, têm pensado em tudo, menos na segurança e na estabilidade da aviação. E, como temos visto, a aviação não funciona na base do amadorismo e sem lideranças sérias.

Evasão de Oficiais da FAB: o que isso pode significar?

Notícias dão conta da evasão acelerada de oficiais da Força Aérea Brasileira nos últimos anos. Esse movimento de aviadores que saem da FAB para a aviação civil sempre ocorreu, mas se as notícias forem verdadeiras, como parecem ser, o que está ocorrendo neste momento é diferente: sem operar e sem remuneração adequada, oficiais da FAB saem e rapidamente são absorvidos por empresas aéreas, no Brasil e no exterior.

A FAB é uma excelente formadora de aviadores. Trata-se de uma Instituição Nacional da mais alta dignidade e honra. Não há um brasileiro decente que não se orgulhe ao ver a FAB operando, seja em demonstrações aéreas ou em operações de resgate e proteção do nosso espaço aéreo.

As diferenças salariais entre militares e civis sempre existiram. A carreira militar envolve outros fatores muito mais importantes do que o dinheiro. Sabe-se disso antes de entrar. Os processos seletivos são rigorosos e extremamente concorridos, então quem entra tem plena capacidade de avaliar a decisão que está tomando ao se juntar à Força.

A aceleração recente da evasão de aviadores e outros oficiais pode ter outros componentes além de remuneração e restrito volume operacional. 

Será que os exemplos que vêm de cima podem estar desmotivando outros oficiais mais novos na sua honra de servir à Força e ao Brasil?

Na política, se conhece a expressão "votar com os pés". Cidadãos descontentes com os rumos de um país e das suas instituições desistem de participar do sistema eleitoral e simplesmente emigram. Vão embora. Muitas vezes desistem dos sonhos, das conexões familiares e até do patrimônio para retomar a vida onde acreditam haver mais dignidade e esperança no futuro.

Talvez essa evasão de oficiais da FAB tenha a ver com isso: os oficiais estão falando através das baixas e tentando dizer, para a sociedade, que algo muito inadequado pode estar ocorrendo com as instituições brasileiras.

Milhões de reais dos pagadores de impostos são jogados no lixo quando um oficial pede baixa. Quando ele o faz, esse dinheiro todo é perdido.

Eticamente falando pode-se questionar as decisões individuais, mas o quadro do que se assiste no nosso país hoje, pode explicar a decisão dolorida e frustrante daqueles que avaliaram o todo, olham para frente, comparam seus sonhos de quando entraram na EPCAR ou na AFA com a realidade que vivem e decidem abandonar a vida militar. 

A Força Aérea Brasileira é uma instituição digna, da qual todo cidadão deve ser orgulhar. A quantidade de baixas deveria servir de sinal de que algo muito errado está acontecendo. E não é só na FAB, mas no país.  

Má liderança na ANAC: tragédia anunciada

A Netflix lançou hoje Congonhas: tragédia anunciada. Uma série documentário com três episódios que reconta o maior acidente da história da aviação brasileira e o período de total desordem causada pela política e incompetência tomando conta da ANAC.

As cenas das lideranças da época, despudoradas, incompetentes, arrogantes e totalmente desconhecedoras de como a aviação funciona causam medo e repulsa.

A AOPA Brasil vem alertando a comunidade aeronáutica e Senadores que o mesmo ator daquela época, com a mesma prática de trocar cargos estratégicos por apoio político, está repetindo agora o que o Brasil já viveu e o documentário mostra. Mesmo com inúmeros profissionais qualificados disponívels, que poderiam continuar a prestar serviços para a aviação dirigindo a ANAC, o governo federal submete nomes sem qualificação para a avaliação do Senado. 

O resultado desse tipo de prática já é conhecido, quando o assunto é aviação. Qualquer pessoa sabe que com aviação não se brinca e, hoje, o governo federal está brincando novamente com fogo, indicando pessoas sem conhecimento no ramo para ocupar diretorias na ANAC.

Não bastasse os argumentos, o que a Lei diz, agora também um seriado de Netflix está aí, para quem quiser ver os resultados da escolha de incompententes para dirigir a aviação. 

A AOPA Brasil está buscando por todos os meios sensibilizar os Senadores da irresponsabilidade de aceitar os nomes indicados e recomenda aos seus associados e à comunidade que falem com os Senadores dos seus estados, alertando-os para essa tragédia anunciada. O Brasil não merece reviver os horrores daquela época.

ANAC: política e outros interesses. Nada sobre a Aviação

Em dezembro de 2024, a Presidência da República enviou mensagem ao Senado Federal com indicações para diversas Agências reguladoras, dentre elas a ANAC.

Já se observava, então, que o uso de agências reguladoras como instrumento de barganha política estava na ordem do dia das relações entre o Poder Executivo e o Legislativo.

Ao longo desses meses observa-se a intensificação desse movimento que pode culminar com a nomeação, pelo Senado Federal, de pessoas sem a qualificação para liderar a Agência responsável pela aviação brasileira.

A AOPA Brasil não conhece nenhum dos indicados, mas tem informações além de indícios muito fortes dos interesses que estão por trás das nomeações. 

Um dado da realidade é que nenhum dos indicados para a Diretoria da ANAC tem histórico, relação ou conhecimento sobre Aviação civil. Cada um deles têm padrinhos políticos fortes e estão sob influência de acordos envolvendo lideranças políticas nacionais. Nesses acordos entra de tudo, menos a Aviação, seus desafios e soluções.

Nessa equação política não entrou a intenção de fortalecer uma Diretoria que já vinha operando bem depois de décadas de amadurecimento da ANAC. 

Dando certo a lógica arquitetada na politicagem, a Aviação "ganhará" imediatamente uma Diretoria majoritária (com 3 novos diretores, que formam maioria), sem nenhuma experiência com o setor aéreo.

Inexperiência em cargos de comando, na Aviação, costuma não dar certo. A política com p minúsculo está falando alto: a ANAC deve perder uma Diretoria técnica e com diálogo construído com o setor aéreo e ganhar, na melhor das hipóteses, uma grande interrogação.

O Brasil não se livra da sina de estar sempre subjugado por interesses menores, que absolutamente nada tem a ver com o bom funcionamento das suas instituições e dos setores que estão sob sua influência e responsabilidade. O Brasil não cansa de caminhar pelo lugar errado com pessoas erradas, ignorando o que é óbvio e até mesmo a Lei. Sim, a Lei: para o Senado confirmar as indicações por meio de pareceres pro forma na Comissão de Infraestrutura e sabatinas relâmpago, os Senadores precisarão fazer vistas grossas à Lei, aprovando para a ANAC pessoas sem conhecimento no setor aéreo e que ocupam há poucos meses posições em empresas reguladas pela própria ANAC, o que é proibido.

Lembra do Caos Aéreo? Indicações podem retroceder a ANAC em 20 anos

Você lembra do "caos aéreo" em 2006, 2007?

Você lembra de diretores da ANAC que não entendiam absolutamente nada de aviação?

Você lembra de uma ANAC fraca, frágil, desorganizada, que trabalhava contra a aviação?

Você lembra de regras inúteis, desatualizadas, que praticamente implodiram a aviação brasileira?

Você lembra da época em que diretor da Agência de Aviação não conhecia o que era uma aeronave, um aeroporto, ou como é a vida de um aviador ou de um proprietário de aeronave?

Você lembra das consequências de uma Agência dirigida por pessoas que não eram do ramo?

Você lembra dos acidentes aéreos que aconteceram por causa dessa bagunça?

A AOPA Brasil lembra muito bem de tudo isso. E muito mais.

Por isso, há meses, a Associação tem acompanhado com muita atenção as indicações do governo federal para as Diretorias da ANAC.

Prepare-se para turbulências à frente: a AOPA Brasil sabe que se os planos do governo derem certo, uma diretoria técnica, formada por pessoas escolhidas com os critérios que a Lei determina, será gradualmente substituída por apaniguados políticos que não entendem absolutamente nada da aviação civil. 

Nas próximas semanas, a AOPA Brasil, com outras entidades amigas, irá explicar os riscos que estão colocados, como a ANAC pode retroceder 15, 20 anos e a aviação brasileira se tornar motivo de deboche internacional e, o pior, de retrocesso de um longo processo de amadurecimento da Agência. 

Uma diretoria hoje formada por gente técnica e de reputação pode ser gradualmente substituída por "apadrinhados políticos". Alguns deles que têm como maior experiência atividades de aeromodelismo quando criança.

Fique atento. As próximas semanas serão agitadas.

AOPA e COPA Brasil: unidas em nova configuração

AOPA Brasil e COPA Brasil são entidades que sempre trabalharam juntas e coexistiram em harmonia. Essa parceria, ao longo dos anos, só aumentou e continuará a evoluir.

Hoje, a AOPA conta na sua Diretoria e Conselho com membros que sempre se dedicaram também à COPA, como os Comandantes Fernando Lohmann, João Nassar, Fábio Freitas e Marcelo Galvão.

Em 2025, a COPA Brasil entendeu que seria importante retomar plenamente as suas atividades, unindo a comunidade dos pilotos e proprietários de aeronaves Cirrus no Brasil.

Para a COPA alcançar seus objetivos e ser forte ela precisa de independência financeira. Para isso, um Memorando de Entendimentos assinado entre AOPA e COPA, em 2019, foi extinto, com a concordância plena das duas entidades.

A AOPA entende que quanto mais forte for a COPA, melhor para a aviação geral brasileira. Precisamos de entidades cada vez mais fortes e ativas, pois os desafios só aumentam.

Do ponto de vista prático, a atuação conjunta não muda em nada: AOPA e COPA irão continuar a trabalhar juntas para proteger nossos interesses em ações institucionais, políticas e de fomento da união da comunidade aeronáutica.

O que muda daqui para frente? Em síntese, a COPA retoma sua autonomia financeira. Obviamente, para que a COPA possa prosperar, ela precisará revigorar sua base de associados, organizando iniciativas próprias e cobrando suas anuidades de forma independente da AOPA.

Sendo assim, a AOPA recomenda aos seus associados proprietários de aeronaves Cirrus que apoiem financeiramente a COPA, de preferência sem prejuízo ao apoio que já fazem à AOPA. Da mesma forma, a COPA recomenda aos associados da AOPA que mantenham suas contribuições à AOPA.

Estamos falando de contribuições financeiras relativamente pequenas, mas que fazem muita diferença para viabilizar as atividades das Associações.

AOPA e COPA reiteram que continuam a trabalhar juntas em tudo que diz respeito à proteção dos interesses da aviação geral. Somos entidades amigas e assim continuaremos.

Acidente no Campo de Marte: o aeroporto é seguro

Hoje, infelizmente, a sociedade acordou com a notícia de um grave acidente envolvendo aeronave que decolava do Campo de Marte, em São Paulo.

Antes de mais nada, a AOPA Brasil manifesta sua solidariedade às vítimas, e ressalta que nas imagens já circulando, é possível acreditar na tentativa de pouso em uma avenida que pode ter sido uma escolha dos aviadores de trocarem suas vidas para proteger outras, que foram preservadas pelo fato da aeronave ter colidido no solo e não em prédios ou residências.

A AOPA Brasil reitera o que já disse inúmeras vezes: todos os aeroportos em São Paulo são seguros.

Aeroportos induzem o crescimento das cidades. Primeiro surgem os aeroportos e depois de alguns anos as cidades se aproximam deles. Aeroportos não são instalados no meio de cidades, elas crescem organicamente para suas redondezas ao longo do tempo.

O aeroporto do Campo de Marte é seguro e se tornará ainda mais seguro quando planos de torná-lo equipado para operações por instrumentos sejam retirados do papel, o que é parte das obrigações da concessionária que hoje administra.

São Paulo é a maior e mais importante cidade da América do Sul e precisa de todos os aeroportos que possui para continuar a ser o maior pólo  de desenvolvimento e prosperidade do continente. A discussão sobre a segurança do aeroporto em função desse acidente é inócua, quando não mal intencionada por quem tem outros interesses, totalmente desconectados da realidade.

AENA está trabalhando seriamente para se tornar tudo que a aviação brasileira não precisa

O Grupo AENA Brasil, que administra 17 aeroportos no Brasil, entre eles Congonhas, Recife e Campo Grande, parece estar trabalhando de maneira planejada para se tornar um dos grandes inimigos da aviação brasileira. Suas atitudes corporativas e ações com a aviação brasileira têm gerado um nível de antipatia na comunidade aeronáutica brasileira que leva a crer que a empresa tem a intenção de conquistar a antipatia generalizada. Ações recorrentemente ruins, decisões arrogantes e juridicamente questionáveis, já não se pode dizer que estamos falando de um fenômeno do acaso, mas de algo planejado. 

Nenhuma empresa consegue alcançar o grau de antipatia de um setor inteiro tão rapidamente sem planejar fazer isso. 

Congonhas: a cereja do bolo

Há algumas semanas, a AOPA Brasil recebeu reclamações de alguns associados baseados em Congonhas, indicando que a expulsão da aviação geral estava chegando em um nível não imaginado nem por eles, que têm caixa para bancar sua permanência naquele aeroporto. 

O risco era uma proposta, que rodava informalmente entre os FBOs de Congonhas, seus clientes, e clientes de outros FBOs. Cada prestador de serviço dizia ser mais capaz do que o outro para garantir slots, a partir do momento que a AENA, ANAC e DECEA retirassem do CGNA a responsabilidade dos slots para operação em Congonhas. O plano seria a transferência da gestão dos slots para a AENA e, dessa, para os FBOs, que os venderiam para seus clientes como parte dos serviços que prestam". 

A AOPA Brasil recebeu essa informação de algumas fontes, mais ou menos no mesmo momento, todas elas críveis e extremamente sérias.

Com essa informação em mãos a AOPA Brasil consultou a ANAC e o DECEA no final de Dezembro para confirmar quanto poderia ser verdade. 

Tendo recebido respostas formais da ANAC e do DECEA, chegamos a conclusão que sim, é possível que tudo isso ocorra: o acesso da aviação geral no aeroporto central da principal cidade da América do Sul, poderá ficar sob a responsabilidade de quem vende serviços de atendimento no aeroporto, retirando o controle e isonomia de acesso ao aeroporto hoje garantido pelo DECEA/CGNA.

Fatos públicos:

Questionada, ANAC informou:

1) A ANAC é responsável pela a regulação de slots no Brasil: "...art. 2º da Lei nº 11.182/2005, compete à União, por intermédio da Anac, regular e fiscalizar as atividades de aviação civil e infraestrutura aeroportuária, assegurando o desenvolvimento do setor e o interesse público. Esta competência é reforçada pelo inciso XIX do art. 8º, que atribui à  Anac a responsabilidade de regular as autorizações de horários de pouso e decolagem de aeronaves civis, observando as condicionantes do controle do espaço aéreo e da infraestrutura aeroportuária disponível."

2) Aeroportos são responsáveis pela definição da sua capacidade de atender aeronaves: "...a Resolução nº 682/2022 da Anac dispõe sobre a elaboração da declaração de capacidade aeroportuária, de responsabilidade do operador aeroportuário. Tal elaboração tem como objetivo analisar as condicionantes do espaço aéreo, bem como a capacidade aeroportuária de processamento, permitindo o alinhamento entre oferta e demanda de infraestrutura. Dessa forma, cabe ao operador aeroportuário o estabelecimento dos parâmetros de coordenação quanto a  infraestrutura aeroportuária, bem como a aplicação de medidas que minimizem efeitos negativos na capacidade aeroportuária".

3) Os slots para a aviação geral serão reduzidos pela metade a partir de 1° de janeiro por causa de obras no aeroporto e não voltarão para a aviação geral: "A partir de 01/01/2025, os slots destinados à aviação geral serão reduzidos de 8 para 4 movimentos/hora, mantendo a proporção histórica de operações entre as pistas auxiliar e principal. A capacidade total de 44 movimentos/hora será mantida, com a reserva de um buffer de 4 movimentos/hora, visando ampliar a margem operacional durante as obras de adequação e ampliação (Fase 1-B do Contrato de Concessão); Após a conclusão das obras, os 4 movimentos/hora alocados como "buffer" serão redistribuí­dos como novos slots da aviação comercial, conforme as regras vigentes à época".

Questionado, o DECEA informou:

4) Há o risco da raposa (AENA) cuidar do galinheiro (slots): "este Subdepartamento de Operações (SDOP/DECEA) ainda não possui posicionamento oficial sobre transferência do gerenciamento de slots para AENA".

5) O DECEA diz que, ao tomar qualquer decisão, o fará levando em consideração o risco da raposa cuidar do galinheiro: "Caso esse assunto evolua de forma consistente, ressalto ao Senhor que os argumentos apresentados sobre a instabilidade, as dificuldades operacionais e os riscos decorrentes de desvios de natureza comercial serão considerados".

O que a AOPA Brasil questionou foi o óbvio: com todos os problemas e falhas que foram corrigidas, há um tempo a comunidade aeronáutica brasileira confia no DECEA/CGNA para arbitrar os slots em aeroportos brasileiros, sendo uma instituição neutra para gerir e garantir o acesso da aviação geral a aeroportos com restrição de oferta de infraestrutura e que a transferência dessa responsabilidade para quem ganhará dinheiro com isso é uma ameaça à isonomia.

A venda de Slots em Congonhas pode se tornar uma "política pública" para a Aviação no aeroporto mais importante para a aviação geral em São Paulo.

Na medida em que a AENA arbitra sua própria capacidade e que está sendo cogitada a hipótese de transferência da gestão da régua de slots do DECEA/CGNA para a AENA e FBOs, slots serão transformados em produtos, como alguns dos nossos associados suspeitavam.

O resultado disso será uma situação que nos remete a uma nota da própria AOPA BRASIL, de 2019, quando afirmávamos que havia o risco da aviação brasileira passar a ser gerida à moda russa. Leia aqui

Mirando um dia chegarmos perto de Fort Lauderdale Executive ou Teterboro, podemos estar virando Vnukovo International.

A comunidade tem parcela de culpa nisso. Lembra quando o colega que opera um jato achou certo expulsar os aviões a pistão de Congonhas? Agora chegou a hora do jato também ser expulso.

A AOPA Brasil é pró mercado, pró desenvolvimento e pró instituições fortes, em particular a ANAC e o DECEA no nosso caso da aviação. O sistema é complexo, precisa de boas regras, bons árbitros e ao mesmo tempo precisa de investimentos que o estado não consegue fazer ou faz mal. 

Para que um modelo desse opere com equilíbrio, os usuários precisam se unir em torno de entidades fortes, que protejam seus os interesses. ABAG e ABRAPHE, por exemplo, são instituições que também trabalham muito pela comunidade. 

O problema é que "o jeitinho brasileiro" afeta também a aviação. "Para que vou apoiar uma entidade se depois do trabalho que será feito vou me beneficiar do mesmo jeito?" é só uma das lógicas que estamos cansados de escutar no nosso meio. 

Esse caso de Congonhas vai começar a explodir a partir da próxima segunda e vai ficar grave em março quando a demanda das operações da aviação geral voltarem para valer com os slots já reduzidos pela metade. Em janeiro, ninguém sentiu muito o problema porque as coisas ainda estavam paradas.

A maior dor dos operadores em Congonhas virá quando descobrirem que tudo ocorrendo como a AENA quer, quem ainda tem condição de pagar pelo conforto de operar em Congonhas virou galinha e a AENA, a raposa. Nem muito dinheiro vai adiantar. Os jatos viraram os aviões a pistão de alguns anos atrás.

Espera-se que a ANAC e o DECEA tenham o bom senso de se manterem árbitros dessa delicada situação, não se eximindo da responsabilidade de garantir acesso isonômico ao aeroporto, controlando o apetite e arrogância da AENA. Ceder à pressão da AENA vai pegar muito mal para as Instituições da aviação brasileira. O atual governador Tarcísio de Freitas, então ministro da Infraestrutura sabe muito bem que a AOPA Brasil vislumbrava esses riscos há anos, quando mostrávamos os abusos cometidos pelos administradores aeroportuários no caso do uso dos pátios para estacionamento de aeronaves, o que até hoje não se resolveu. Agora as faturas mais altas da liberalização geral pode ter começado a chegar.